Ao
refletir sobre minha vida, percebo que não tive muitas experiências e contato
com pessoas com deficiência. Elas sempre estiveram distantes de mim, pois na
minha família e na comunidade onde vivia não ouvia falar sobre pessoas que
tivessem algum tipo de deficiência. Posso dizer que o único contato que tive
diretamente até esse momento foi com meu colega do 3° ano do ensino médio Fábio
Misael no ano de 2006.
Lembro-me
dele com muito carinho, pois ele era bastante esforçado nos estudos, vivia em
um abrigo, muito carente, mas sempre carinhoso e atencioso com todos. Fábio
tinha uma deficiência física, mas na época não entendia bem o que ele tinha. Ele
se sentava sozinho no canto da sala, e ali acompanhava as aulas. Ele tinha
dificuldade de pronunciar as palavras, gaguejava bastante, tinha dificuldades
nos movimentos e por vezes ele era motivo de piadas na sala. Não havia ninguém
para ajudá-lo, quando precisava, éramos quem o ajudava. Ele era muito esperto,
participava das aulas e suas notas não deixavam a desejar.
No fim
daquele ano, fizemos uma cesta para ele com vários produtos de higiene, perfume
e roupas. Ele havia passado de ano, participou da formatura, mas todo ano ele
voltava para o 1° ano do Ensino médio, não entendia o porquê que isso
acontecia, pois nós avançáva-mos nos estudos e o Fábio voltava novamente para o
início. Depois daquele ano, me mudei para outra cidade, e não tive mais
notícias dele.
Através
da disciplina de Educação Especial do curso de Pedagogia, ministrada pelo
professor Giovani, que pude ter uma visão mais aprofundada em relação às
pessoas com deficiência. Sobre os vários tipos de deficiências, como se deu o
nascimento da educação especial, todo o contexto histórico, as políticas que
tratam sobre, e todas as discussões e debates referentes à inclusão dessas
pessoas no âmbito escolar e na comunidade, e a forma como estas tem sido tratadas,
e se de fato essas políticas tem se efetivado na prática.
Passei
a entender, que por muito tempo os deficientes foram esquecidos, abandonados e
muitas vezes eliminados, estando à margem dos grupos sociais. Segundo Neres (2006,
p.11) aquele indivíduo portador de algum tipo de deficiência, acabava por
tornar-se um empecilho, um peso que devia ser abandonado e relegado à própria sorte.
Essa realidade esteve presente em várias sociedades antigas.
As mudanças ocorrem diante das novas formas de
produção, das organizações sociais, das lutas pelos direitos dos homens, que
levam também a questionar sobre os direitos das pessoas com deficiência. O
avanço da ciência trouxe novos olhares a essas pessoas, passando a explicar
suas causas de forma natural, e não mais por interferência divina.
Com o
tempo, coube ao Estado assumir a responsabilidade de suprir e dar assistência
aos mais carentes. A educação especial nasce com o intuito de instruir as
pessoas com deficiências, a fim de torná-las hábeis ao trabalho. Através do
surgimento de leis que fundamentam os direitos dos trabalhadores, nascem também
políticas voltadas a atender as necessidades dos deficientes.
A
década de 90 foi marcada por várias políticas e leis que se pautavam, em defesa
de uma educação inclusiva, onde os direitos dos deficientes fossem assegurados.
No capítulo V da Lei n°9.394/96, em especial nos artigos 58 e 59, asseguram aos
educandos com deficiências o acesso ao ensino regular de ensino, a oferta de serviços
de apoio, que visem suprir as necessidades dos alunos com transtornos globais
do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação.
É dever
do Estado fazer valer esses direitos,dando suporte necessário para um bom
atendimento. Mas se atentarmos as políticas voltadas para a educação especial,
compreendemos que essas metas estão longe de se efetivar em nosso país, muitos em
traves e discussões acabam por desacelerar o andamento desse processo. Incluir
vai além de simplesmente inserir o aluno especial a escola comum, é
proporcionar ações que visem superar dificuldades, trazer um conhecimento
significativo de igual modo a todos, não admitindo as práticas discriminatórias
dentro do contexto escolar, que perpassam toda a nossa sociedade.
Oferecer
um atendimento especializado que supra as necessidades é um direito e está
determinado nas Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na educação
básica, como prevê a resolução CNE/CEB n°2, de 11 de Setembro de 2001, em seu
artigo 1° parágrafo único, onde estes receberão o atendimento desde a educação
infantil, nas creches e pré-escolas assegurando-lhes os serviços necessários, o
atendimento Educacional Especializado. Assim, ao conhecer os documentos
norteadores saímos da ignorância, passamos a enxergar o outro e a respeitá-lo.
O AEE
vem para atender a essas pessoas, proporcionando um atendimento especializado
complementar ou suplementar a classe comum. Esse atendimento ocorre em um
horário oposto ao da escolarização, onde ali os mesmos conteúdos são
trabalhados. Esse ambiente é resultado das muitas lutas em prol da melhoria do
ensino e da inclusão das pessoas com deficiência. Ali os alunos aprendem as
duas línguas, tanto à língua de Sinais-Libras, quanto à língua da comunidade, a
língua portuguesa. Essa abordagem bilíngüe está pautada no decreto 5.626, de 5
de Dezembro de 2005, no qual garante mais esse direito na formação, onde o acesso
desses conhecimentos devem se dar de forma simultânea no espaço escolar.
Ao
fazer essa breve análise sobre o contexto histórico e a observação de algumas
leis, compreendo que há muito a ser feito. Quando me recordo do meu colega
Fábio Misael, entendo que ele não recebeu o atendimento necessário, e a escola
não tinha preparo para recebê-lo, pois era ele quem deveria se adequar aos
padrões e estruturas da escola. Essa negligência no atendimento, somente
contribui para a marginalização, excluindo-os do convívio social. A inclusão
não pode ficar somente nos papéis e documentos, é preciso repensar as práticas
pedagógicas, superar os desafios, lutar em prol de uma educação de qualidade
para essas pessoas. É preciso pensar uma escola onde todos tenham o direito de
compartilhar do mesmo espaço sem segregação de qualquer natureza.
Referências Bibliográficas:
BRASIL.
Ministério da Educação e Cultura. Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei n°9394/69, de 20/12/96.
Brasília, 1996.
BRASIL. Ministério
da Educação. Secretaria de Educação Especial. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica.
Brasília: MEC/SEESP, 2001.
BRASIL. Decreto5. 626, de 5 dez.2005. Casa Civil.
Brasília, 2005.
NERES, C.C. Considerações
acerca da História da escolarização dos alunos com necessidades especiais. In:
NERES, Celi Corrêa; LANCILLOTTI, Samira Saad Pulchério. Educação especial em foco: Questões Contemporâneas. Campo Grande:
Ed.UNIDERP, 2006.
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