Lembro-me
quando mudei de casa. Não gostei o que era natural, pois deixara no endereço
antigo, muitos amigos na vizinhança.
O tempo passou e surpreendentemente
no novo endereço a nossa rua era muito animada, pois havia muitas crianças e a
grande maioria da mesma idade. Era tempo
em que os carros eram raros (a cidade ainda era pequena), e o lugar preferido
para nossas brincadeiras era a rua.
Como a maioria das crianças da rua
estudava no período matutino, assim que chegávamos da escola, almoçávamos,
ajudávamos nos afazeres domésticos e tarefas escolares (os irmãos mais velhos
ajudavam aos mais novos) e o restante da tarde... A rua que nos aguardasse.
Brincávamos de queimada, pique -
esconde, e é claro, nossa brincadeira favorita: Bets.
Eu particularmente fiz amizade com
uma menina muito bonita e carinhosa que embora demorasse a entender os jogos de
cartas (pife, rouba-monte), de memória, era expert na Bets. Éramos uma dupla
infalível.
Certo dia peguei minha mãe
conversando com a mãe de minha amiga e nessa conversa falavam das dificuldades
que ela tinha na escola e os remédios que sempre tomava.
Naquela época não compreendi muita
coisa, a verdade é que não estava preocupada com isso. Gostava dela e isso é
que importava. Só me lembro de ter perguntado à minha mãe se ela estava doente
já que estava tomando remédios. Minha explicou que há pessoas que mesmo não
estando doente precisam tomar remédios. Foi assim, desta forma singela que ela
me explicou. E bastou para mim.
A vida continuou. Nós duas
crescemos, nos mudamos e cada uma seguiu sua vida.
Sei por informações de sua mãe, que
atualmente mora em outro Estado, está casada e constituiu família.
Hoje sei que tive o privilégio de
conviver com uma pessoa com deficiência intelectual, que além de muito querida
ajudou a escrever a linha do tempo da minha vida.
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